sexta-feira, 13 de junho de 2008

Drumond, depois falo mais

Estive lendo alguns poemas de Carlos Drumond de Andrade, reunidos no livro "Claro Enigma" publicado após a Segunda Guerra Mundial e que mostra alguma influência do existencialismo francês, no entanto também critica a ânsia de viver com intensidade e sacrificar a essência do ser humano. No belíssimo poema "Um boi vê os homens" encontrei várias referências a essa postura, os humanos perdendo seu referencial.

Um pequeno trecho que transcrevo aqui permite trazer aos dias intensos de nosso mundo moderno a visão crítica e aflita de um Drumond dos anos 50, que escrevia:

" Tão delicados (mais que um arbusto)e correm e correm de um para outro lado, sempre esquecidos de alguma coisa. Certamente falta-lhes não sei que atributo essencial,posto se apresentem nobres e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves, até sinistros. Coitados, dir-se-ia não escutam nem o canto do ar nem os segredos do feno, como também parecem não enxergar o que é visível e comum a cada um de nós(....)
e carecidos de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme(que sabemos nós?)....e difícil,depois disso,é ruminarmos nossa verdade."


O Melancólico Mestre Crítico de Itabira, assim é como o vejo nesta fase de seus poemas, ou seja, cunhei a expressão nesse momento, não a tomei emprestada de nenhum crítico literário ou dos livros de estudo,apresentava na década de 1950 uma angústia mas, ao mesmo tempo, havia o que esperar dos seres humanos, mesmo que ruminar a verdade de negar o amor, o ciúme e estes sentimentos que nos caracterizam todos, seja um exerício cotidiano difícil.

Vinícius de Moraes, no poema "Rosa de Hiroxima" também fala destas angústias de um mundo no qual a capacidade destrutiva havia se tornado intensa, contava-se mortos aos milhões, além dos efeitos "colaterais" da guerra, como "Mulheres rotas, alteradas, pensem nas meninas como rosas pálidas, sem cor , sem perfume, sem rosa, sem nada".

Pretendo retornar ao tema mas, o que de fato despertou minha curiosidade nestas releituras de Drumond foi a atualidade de poemas escritos faz mais de 50 anos. Densos, fortes e que realmente nos levam a pensar em nossas atitudes, quer sejam elas de conformismo ou de incômodo com as mazelas de toda sorte espalhadas na urbe que urge em crescer, correr,na qual ninguém mais tem tempo de ser e nada ter pra fazer, como uma música de Marcos e Paulo Valle, regravada pelos Paralamas do Sucesso, intitulada "Capitão de Indústria", procurem ouvir esta música.


PS: Ainda não achei a letra, o popular "cedilha"em meu teclado,por isso, além de buscar sinônimos para minhas palavras, não pude transcrever o poema de Drumond como gostaria mas, talvez isto os estimule a procurar o texto e então ler com calma e profundidade, talvez com Piazzolla ao fundo, não experimentei mas, creio ser boa mistura....

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