segunda-feira, 28 de julho de 2008

Raízes do Brasil

Sérgio Buarque de Hollanda escreveu o livro que dá título a esse texto em 1936.As análises do historiador buscavam entender,assim como outros estudos que viriam depois,a forma como foi sendo construída a identidade do brasileiro, aquilo que anos mais tarde o antropólogo Darcy Ribeiro denominou de " brasilidade".O modelo de colonização aqui instalado, a maneira como os portugueses não implantaram um projeto,mas consentiram em uma ocupação territorial aleatória que fixou-se na área de litoral,algo que pode ser relacionado à intenção daqueles que vinham para cá: obter riqueza e regressar a Portugal.Não havia uma identidade afetiva,a vinda ao novo mundo foi determinada por interesses econômicos ou, em alguns casos, pior: uma sentença judicial de degredo havia determinado a vinda ao Brasil.
A estrutura identificada no projeto espanhol de colonização demonstra que o estado interferiu diretamente. As cidades eram planejadas e ordenadas de maneira que a ocupação do território seguisse um plano pré-estabelecido.A interiorização nas áreas dominadas pela Espanha na América demonstram que a Coroa Espanhola entendia seus domínios aqui como uma extensão do próprio reino. Estas compreensões foram importantes na construção de uma identidade cultural nas áreas de dominação espanhola,bem anterior ao sentimento de sentir-se brasileiro.As disputas entre os " Criollos", uma elite formada por pessoas que vieram da Espanha, mas a segunda geração nasceu na colônia,e a " Elite Peninsular", composta por ocupantes dos cargos administrativos, enviados para a colônia com a finalidade de cumprir e fazer cumprir as determinações emanadas desde Madrid também influenciaram na forma como foi construída a identidade dos membros dos países que se formaram a partir da dominação espanhola.
Os portugueses só deram início à ocupação do território brasileiro após 30 anos da descoberta e mesmo assim, só o fizeram porque estavam sendo pressionados por países como Inglaterra e França que questionavam a posse sem a ocupação física do espaço.A escolha de implantar o sistema das Capitanias Hereditárias também demonstra a opção por transferir à iniciativa privada õ empreendimento colonizador. Formou-se uma colônia de exploração para a qual as pessoas vinham pensando em como e quando regressariam a Portugal. Não existiu um projeto de ocupação, as coisas foram feitas de forma aleatória e, o Estado português apenas interferiu mais diretamente no século XVII, após a descoberta de ouro.
O brasileiro que sente uma identidade com seu país,esse demorou a existir e na décaeda de 1930,quando Sérgio Buarque de Hollanda escreveu sobre as Raízes do Brasil, ele estava buscando este ponto de identidade. Os trabalhos de Gilberto Freyre, sobretudo em Casa Grande& Senzala,de Caio Prado Júnior, sobre a formação econômica do Brasil,de Celso Furtado, também analisando a economia brasileira, são obras que,complementares ao trabalho de Sergio Buarque,estudam e buscam compreender o Brasil em suas contradições sócio-econômicas,na maneira como a sociedade brasileira se estruturou e os valores que se afirmaram.
Décadas após estas primeiras análises,o antropólogo Darcy Ribeiro buscou compreender o Brasil e os brasileiros,e destacou que um dos traços mais marcantes do povo era a mestiçagem. Aquilo que havia sido motivo de vergonha para gerações de estudiosos que buscavam explicar o Brasil, passou a ser apresentado como virtude.A " brasilidade" como gostava de dizer Ribeiro,repousa em uma cultura multifacetada porque é multiétnica. A diversidade como grande herança,para alguns seria paradoxal, mas na verdade, este é o ponto que precisa ser refletido mais detidamente. Pretendo voltar à brasilidade porque em tempos de políticas de cotas e " ações afirmativas" é importante discutir o tema.

domingo, 27 de julho de 2008

O Brasil, a Rodada de Doha e Outras Considerações

As recentes notícias relativas às reuniões da OMC fazem referência ao fato de o Brasil ter concordado com algumas das propostas da UE e que esta postura teria contrariado aliados como Argentina e Índia. O chanceler Celso Amorim destacou a importâcia de levar adiante as negociações e reconhecer que as assimetrias existentes entre os países que integram o G-20 não podem inviabilizar acordos positivos em última instância.

O Brasil hoje é um importante interloutor dos países ricos e, um articulador hábil que tem sabido organizar suas demandas e atrair outros países para, em bloco, negociar em situações mais favoráveis. Os países ricos, sobretudo da Europa e América do Norte querem que liberalizemos tarifas em troca de cortes nos subsídios agrícolas que praticam. Há de se levar em conta que, na atual conjuntura de crise econômica e queda na produção e nos empregos, vivenciada pelos Estados Unidos e com reflexos em todas as outras economias, cortar subsídios não é benefício nem favor aos outros países, antes de tudo, é uma necessidade real da economia norte-americana.

Desta forma, ainda existe muita coisa a ser negociada na rodada Doha da OMC e, creio que a postura brasileira tem sido próativa, mas não estão sendo feitas concessões que nos prejudiquem e as críticas do empresariado brasileiro devem ser analisadas com cautela e devemos sempre buscar negociações que visem o desenvolvimento sustentado e seguro de nossa economia.

As críticas que o liberalismo faz às tarifas protecionistas adotadas por países em desenvolvimento,economias emergentes como ïndia e Brasil,não se sustentam na medida em que a UE e os EUA são protecionistas e além disso praticam subsídios que desvirtuam preços de diversos produtos,especialmente alimentícios.

O mundo está passando por intensas transformações e o fato de haver pessoas que hoje se alimentam melhor porque a economia de seus países se estabilizou e os governos praticam políticas sociais mais abrangentes fez com que surgissem especulações relacionadas à produção de etanol a partir do bagaço da cana-de-açúcar e o Brasil estaria sacrificando aŕeas para cultivo de alimentos em prol da cultura de cana,o que não é verdade.Os espaços para plantio de alimentos no Brasil são muito vastos e os custos de produção em nosso país tornam o agronegócio muito competitivo e isso assusta outros países,especialmente na UE.

As mentiras sobre o etanol já foram devidamente esclarecidas e o secretário da FAO reconheceu que o Brasil não está comprometendo suas áreas para cultivo de alimentos e nossa capacidade competitiva para produzir combustíveis alternativos,de fontes renováveis,a baixos custos é realmente a fonte da preocupação de muitos daqueles que nos criticam.O Brasil negocia na OMC mas preserva nossos interesses e os países com os quais nos articulamos também compreendem nossa posição.

o Brasil optou não integrar a OCDE e tem sido leal aos seus aliados. A imprensa noticia desfavoravelmente ações de nossa política externa sem buscar aprofundar-se nos temas. A verdade é que,depois do obscurantismo da era FHC,a atuação do Itamaraty tem sido qualificada e com resultados muito positivos para o Brasil.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

O MST Perde a Legitimidade

Na década de 1980, após uma luta envolvendo a posse da fazenda Anoni, no RS,o Movimento dos Trabalhadores sem terra se afirmou como uma importante organização que pressionava legítimamente o governo para que fosse realizada uma ampla reforma agrária no Brasil, cuja história é marcada pela concentração de terras em grandes latifúndios muitas vezes improdutivos.

Grupos sociais de pressão sobre o poder constituído fazem parte da democracia e a busca por melhores condições de trabalho e vida é um anseio natural do ser humano.A sociedade brasileira tinha simpatias pela luta em prol da reforma agrária e acreditava ser justa a luta que passou a ser comandada pelo MST. Na década de 1990 o movimento cresceu e adquiriu expressão internacional, enviando representantes para diversos países onde foram expor a luta pela terra no Brasil.

Mas as ações foram se tornando mais violentas e não visavam apenas áreas improdutivas e essa situação começou a gerar intranquilidade e além destas práticas,foram feitas denúncias de que muitos assentados haviam vendido seus lotes. A luta pela reforma agrária havia se convertido em negócio, o MST já não era mais visto com aquela aura romântica que havia envolvido o movimento logo que o mesmo começou sua luta.

Em ações mais recentes, a invasão de uma fazenda pertencente a uma empresa de celulose no RS, com a destruição dos laboratórios e, a interdição da ferrovia da Vale do Rio doce causaram prejuízos e mostraram que o MST passou a praticar crimes comuns como seqüestro e invasão de prédios públicos. A exemplo do que aconteceu com as FARC na Colômbia, que começaram sua luta para mudar o país na década de 1970 e depois se associaram ao narcotráfico convertendo-se em um bando armado de criminosos, o MST também se despersonaliza e perde legitimidade.

A sociedade brasileira não pode ser refém de movimentos que, legítimos em sua orígem, perdem o foco de sua luta e tornam-se meras organizações criminosas. O Estado democrático de direito não convive nem dá respaldo ao caminho que o MST escolheu:depredação,sequestros,invasões de áreas produtivas. A punição por práticas criminosas está contida em nosso Código Penal e as autoridades competentes não devem sentir-se pressionadas pelo alcance político do MST, e o governo do presidente Lula também não será omisso aos excessos dessa organização.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

A Natureza Humana em Brás Cubas

Machado de Assis escreve memórias póstumas e recheia o livro com digressões de um defunto-autor que faz uma espécie de inventário de sua vida e avalia vários acontecimentos tecendo considerações sobre a sociedade da época,as novas idéias que estavam surgindo e como ele as compreendia.

O Humanitismo exposto por Quincas Borba tinha idéias relacionadas ao darwinismo, a sobrevivência dos mais fortes,as idéias de Cesare Lombroso que analisavam causas físicas para a criminalidade, que no Brasil teve como principal seguidor o médico baiano Raymundo Nina Rodrigues, que acrescentou às teorias de seu colega italiano,conceitos racistas e acreditava,por exemplo, que os mulatos eram mais propensos a crimes sexuais porque herdavam dos negros a intensa libido e um comportamento dado à luxúria.

A primeira mulher por quem Brás Cubas se apaixonou foi uma cortesã de nome Marcela. Ela o amou durante 15 meses e onze contos de réis, uma quantia de dinheiro considerável a tal ponto o pai do jovem apaixonado decide mandá-lo estudar em Coimbra porque era mais barato mandar o filho para Portugal do que continuar sustentando os luxuosos presentes que ele dava para sua amada.
Aprendeu algumas coisas na Universidade de Coimbra, mas tratou os estudos com o desdém de quem cumpre uma obrigação enfadonha. Ao descrever sua relação com Marcela,Brás Cubas deixa evidente que tudo se baseava em dinheiro,não havia espaços para suspiros românticos.

Ter boas relações e conquistar prestígio, isso era ao que Brás Cubas deveria se dedicar e, se o caminho para seus projetos passava por um casamento, ele estava disposto a fazer esse sacrifício mas também isso não acontece e, aquela com quem se casaria casou-se comoutro,mas tempos depois, Virgília tornou-se sua amante e, também neste aspecto Machado destrói mitos românticos. Há um marido traído, uma alcoviteira e um amante que delicia-se ao saber que o marido de Virgília havia recusado um cargo público porque a nomeação foi publicada no diário oficial em um dia 13 e ele, supersticioso, invocou outras razões mas, para a própria mulher comentou que o problema era o dia 13, esse número lhe causava maus presságios,muitos tinham sido os acontecimentos funestos em sua vida ocorridas nesta data.Brás Cubas divertiu-se em saber que, além de marido traído,o esposo de Virgília era um homem supersticioso e esta era uma inequívoca demonstração de ignorância.

O tempo da ciência, do conhecimento, não davam espaços para as superstições e crenças. Brás Cubas era um cético narcisista,pois essa era a verddeira naturea humana e,mesmo que na infância a mãe tentasse ensinar valores cristãos ao filho, a condescendência paterna para as pequenas maldades praticadas no decorrer de um dia e apagadas pelas preces noturnas,forjaram o homem no qual Brás Cubas se converteu, o que é muito bem exposto no capítulo XI "O menino é o pai do homem".

Ao avaliar sua existência, Brás Cubas alegra-se por não haver tido filhos, não deixar a ninguém, o legado da miséria de sua existência. Dessa forma,usando uma narrativa que não é cronológica mas segue as lembranças do narrador conforme a importância que ele atribuía a elas,Machado de Assis inovou em seu romance e ao mesmo tempo declarou que a natureza humana,na forma das pessoas que ele encontrou e com quem se relacionou era por demais mesquinha e não deixar herdeiros era o mesmo que dizer que a continuidade da raça não se justificava.

As FARC e a nova conjuntura Latino Americana

Uma das guerrilhas mais antigas em atividade na América do Sul, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia tiveram um projeto de revolução, a exemplo do que aconteceu em outros países, especialmente após o êxito da Revolução Cubana em 1959.

Na década de 1970 houve a vitória da Frente Sandinista de Revolução Nacional, que conseguiu tomar o poder na Nicarágua pondo fim à ditadura da família Somoza que governou o país por mais de 40 anos.Houve novo sopro revolucionário e em El Salvador a Frente Farabundo Martí de Libertação não consegiu tomar o poder graças ao apoio que os EUA deram ao governo salvadorenho. O Sendero Luminoso,no Perú também experimentou significativo crescimento.No entanto,além da Nicarágua, que enfrentou grupos contra-revolucionários apoiados pelo governo de Ronald Reagan e onde os desgastes fizeram com que os sandinistas perdessem as eleições e Violeta Chamorro,oposicionista ao governo revolucionário, conquistou o poder.A FSLN converteu-se em partido político e, nas últimas eleições retornou ao poder pela via democrática com a eleição de Daniel Ortega.

As FARC não conseguiram tomar o poder.Sem recursos, aliaram-se ao narcotráfico e abandonando as práticas guerrilheiras clássicas,enfrentando o poder organizado, converteram-se em criminosos comuns travestidos de guerrilheiros.Além das relações com o narcotráfico passaram a praticar seqüestros e difícilmente poderiam ser associadas a um movimento guerrilheiro porque distanciaram-se daqueles ideais de socialismo, liberdade, igualdade e justiça que moveram as revoluções socialistas no passado.

Novos projetos de socialismo levaram ao poder os presidentes da Bolívia, Evo Morales, do Equador, Rafael Correa e, mais rcentemente um esquerdista, Fernando Lugo, foi eleito presidente do Paraguai. Além destes projetos, há o governo de Hugo Chaves na Venezuela,Cristina Kirchner, na Argentina e Luís Inácio Lula da Silva, no Brasil, que também representaram a ascensão de regimes de esquerda ao poder.Em todos esses casos, prevaleceu a via democrática.

A realidade política latinoamericana não comporta mais aventuras golpistas e imposições ditatoriais e dentro desta conjuntura as FARC perderam sua função e não conseguem mais justificar a própria existência. O governo colombiano está certo em não negociar e, se não tiverem apoio de outros governos, as FARC vão ter que escolher a via democrática ou se extinguir.


O Estado Democrático de Direito não convive com práticas guerrilheiras que nada tem a ver com a democracia. As lutas contra as ditaduras em outros momentos históricos da América Latina justificaram a existência da luta armada como alternativa para a conquista do poder. Não há mais razão para a luta armada, o que se afirmou no Continente Americano foi a Democracia e, sendo assim, é preciso rechaçar ações armadas pois estas já não condizem mais com a realidade política da região.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Uma Nova Revolução Cubana?

Os jornais de hoje noticiaram que teria sido encontrada uma reserva de petróleo em área cubana,cuja primeira estimativa é de 10 bilhões de barris,o que nestes tempos como valor ultrapassando os U$140,00, seria algo que para as atuais circunstâncias equivaleriaa a uma segunda Revolução Cubana.

Empresas norte-americanas apenas lamentam o embargo e a proibição de negociar com a ilha caribenha. A Petrobrás,presente na região pode aproveitar-se e realizar bons negócios que são bons para o Brasil e também para o desenvolvimento de Cuba.

Há mais informações a serem divulgadas sobre o tema e mesmo assim, as expectativas são muito boas e a América Latina vive um momento importante neste aspecto energético, haja vista a descoberta de reservas petrolíferas também em território uruguaio. Diante disto tudo, questões de segurança devem ser analisadas cada vez com maior cuidado.