Sérgio Buarque de Hollanda escreveu o livro que dá título a esse texto em 1936.As análises do historiador buscavam entender,assim como outros estudos que viriam depois,a forma como foi sendo construída a identidade do brasileiro, aquilo que anos mais tarde o antropólogo Darcy Ribeiro denominou de " brasilidade".O modelo de colonização aqui instalado, a maneira como os portugueses não implantaram um projeto,mas consentiram em uma ocupação territorial aleatória que fixou-se na área de litoral,algo que pode ser relacionado à intenção daqueles que vinham para cá: obter riqueza e regressar a Portugal.Não havia uma identidade afetiva,a vinda ao novo mundo foi determinada por interesses econômicos ou, em alguns casos, pior: uma sentença judicial de degredo havia determinado a vinda ao Brasil.
A estrutura identificada no projeto espanhol de colonização demonstra que o estado interferiu diretamente. As cidades eram planejadas e ordenadas de maneira que a ocupação do território seguisse um plano pré-estabelecido.A interiorização nas áreas dominadas pela Espanha na América demonstram que a Coroa Espanhola entendia seus domínios aqui como uma extensão do próprio reino. Estas compreensões foram importantes na construção de uma identidade cultural nas áreas de dominação espanhola,bem anterior ao sentimento de sentir-se brasileiro.As disputas entre os " Criollos", uma elite formada por pessoas que vieram da Espanha, mas a segunda geração nasceu na colônia,e a " Elite Peninsular", composta por ocupantes dos cargos administrativos, enviados para a colônia com a finalidade de cumprir e fazer cumprir as determinações emanadas desde Madrid também influenciaram na forma como foi construída a identidade dos membros dos países que se formaram a partir da dominação espanhola.
Os portugueses só deram início à ocupação do território brasileiro após 30 anos da descoberta e mesmo assim, só o fizeram porque estavam sendo pressionados por países como Inglaterra e França que questionavam a posse sem a ocupação física do espaço.A escolha de implantar o sistema das Capitanias Hereditárias também demonstra a opção por transferir à iniciativa privada õ empreendimento colonizador. Formou-se uma colônia de exploração para a qual as pessoas vinham pensando em como e quando regressariam a Portugal. Não existiu um projeto de ocupação, as coisas foram feitas de forma aleatória e, o Estado português apenas interferiu mais diretamente no século XVII, após a descoberta de ouro.
O brasileiro que sente uma identidade com seu país,esse demorou a existir e na décaeda de 1930,quando Sérgio Buarque de Hollanda escreveu sobre as Raízes do Brasil, ele estava buscando este ponto de identidade. Os trabalhos de Gilberto Freyre, sobretudo em Casa Grande& Senzala,de Caio Prado Júnior, sobre a formação econômica do Brasil,de Celso Furtado, também analisando a economia brasileira, são obras que,complementares ao trabalho de Sergio Buarque,estudam e buscam compreender o Brasil em suas contradições sócio-econômicas,na maneira como a sociedade brasileira se estruturou e os valores que se afirmaram.
Décadas após estas primeiras análises,o antropólogo Darcy Ribeiro buscou compreender o Brasil e os brasileiros,e destacou que um dos traços mais marcantes do povo era a mestiçagem. Aquilo que havia sido motivo de vergonha para gerações de estudiosos que buscavam explicar o Brasil, passou a ser apresentado como virtude.A " brasilidade" como gostava de dizer Ribeiro,repousa em uma cultura multifacetada porque é multiétnica. A diversidade como grande herança,para alguns seria paradoxal, mas na verdade, este é o ponto que precisa ser refletido mais detidamente. Pretendo voltar à brasilidade porque em tempos de políticas de cotas e " ações afirmativas" é importante discutir o tema.