terça-feira, 5 de agosto de 2008

Brasilidade e Darcy Ribeiro

Interessante observar que nas décadas de 1930 e 1940 estudiosos como : Sérgio Buarque de Hollanda,Gilberto Freyre e Caio Prado Júnior buscaram estudar o Brasil em sua formação econômica, social e cultural. Pretenderam compreender que nas " raízes do Brasil" havia muito da " Casa Grande & Senzala" e um país voltado à exportação, que começou sob o signo da comercialização do açúcar destinado ao mercado europeu, que teve no ciclo do ouro uma nova fase, toda ela voltada para o exterior.E durante o período de produção de algodão,borracha,café,sempre esteve voltado para as economias centrais,esse país carecia de uma identidade e o povo envergonhava-se de como se via e também da maneira como julgava ser visto.
Um sentimento de inferioridade,a síndrome de cachorro vira-lata, como disse certa vez Nelson Rodrigues,era algo que fazia com que os brasileiros estivessem sempre dispostos a imitar outros modelos.Primeiro os modismos e as formas européias e depois, quando os EUA tornaram-se potência hegemônica,também passaram a ser aquele a quem os brasileiros desejavam copiar.Negavam sua identidade por uma confluência de fatores sentidos.
O português que veio ao Brasil nos primórdios da colonização:ou buscava enriquecimento e fama rápidos ou,estava cumprindo pena de degredo que, conforme o crime praticado, o destino era o Brasil ou os domínios portugueses na África.Os índios,que aqui viviam, tinham seus conflitos inter-tribais,mas respeitavam-se e gozavam de sua liberdade. Os africanos, trazidos compulsoriamente na condição de escravos, foram retirados de seu habitat,privados de sua cultura, sua língua e seu povo, para viver no Brasil nas mais precárias condições.
Houve mestiçagem mas, isso sempre foi motivo de vergonha. A raça não era pura e a desigualdade social era intensa.Mas com o tempo e, Darcy Ribeiro é o antropólogo que faz esse resgate, o brasileiro precisou compreender que sua força estava nessa visão multiétnica, que a adaptabilidade e a capacidade criativa vinham da fusão de raças e as misturas que levaram à formação de um povo que, somente em momento muito recente passou a sentir-se com identidade. Este é o sentido de brasilidade definido por Darcy Ribeiro e que, no passado tentaram buscar e compreender mas as matrizes estavam equivocadas. Analisou-se a sociedade e a economia mas sob um prisma conservador e era preciso esteder a visão para além das senzalas e choupanas, era preciso ver que a casa grande misturava-se à senzala,as cabanas e as fazendas,os casarões e os cortiços, como descreveu Alvares de Azevedo,na decadência do Império,e depois, Brás Cubas, em suas Memórias Póstumas.
Ainda resta muito a ser feito mas, é preciso entender que desde "Vidas Secas e São Bernardo,libertados das Memórias do Cárcere, buscando a Luz do Túnel que pode vir dos Subterrâneos da Liberdade, entre tantas Gabrielas ou Tietas,também existe espaço para os olhos de ressaca de uma Capitú,e a Iracema de Alencar pode encontrar-se com a sensual Rita Baiana que dançava no Cortiço."
A sucessão de títulos acima remete a distintos autores que traçaram um painel bem interessante do Brasil e de sua sociedade em diferentes momentos. Apenas agreguei na forma de texto,espero que perdoem essa licença poética,mas isso creio que também esteja presente no que Ribeiro definiu como nossa identidade intrínseca, a Brasilidade.

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