sábado, 1 de maio de 2010

Imagens Pensadas

As vezes vamos a uma pinacoteca e vemos quadros de um pintor e ao lado ou na parte inferior da tela há alguma explicação ou apenas o título da obra. O que vemos pode não ter nada a ver com aquilo que o autor da obra imaginou. Os críticos de arte costumam construir textos explicativos sobre coisas que apenas eles enxergam. Uma tela diz coisas distintas a cada um que a vë e em cada visita ela pode transmitir algo que não havia sido compreendido mas é curioso esse sentimento que existe em todos nós. Desejamos ver o belo, e o conceito é individual mesmo que pretendam coletivizá-lo. Senso comum que faz as pessoas admirarem a Monalisa, ou os quadros de Monnet, Miró ou Andy Warhol:a primeira tem significados por tudo que seu autor representa, o segundo, pintou várias vezes as mesmas paisagens mas soube variar os tons como variam os dias e as estações, mesmo assim acho que ele teve uma existëncia monótona como suas obras me transmitem. Já o pintor catalão virou ícone de traços soltos, nesse sentido os esboços criativos de Oscar Niemeyer deveriam estar todos devidamente emoldurados e catalogados como arte e os desenhos que um dia ornamentaram as geladeiras da casa de nossos pais, os cartões que pintamos na escola para o dia das mães ou dos pais, também deveriam ser elevados à categoria artística...sobre o último, colorir retratos de pessoas famosas como Marilin Monroe, ou colar um lata de sopa sobre uma tela, penso da ex esposa de um amigo, ela jogou um vaso nele e quando aquele objeto de cerämica espatifou-se na parede criando uma mancha desordenada mas curiosa...não deveriam ter pintado a parde, se a fotografassem e projetassem como arte quem sabe o quanto valeria o instante de fúria de Maria Cändida...
Mas Salvador Dalí achava a boca da atriz Mae West sensual e provocante. Algo que merecia outro significado e ele com sua genialidade criou algo a partir disso: Criou um sofá no formato daqueles lábios. Façam uma pesquisa porque não consegui copiar a imagem para colar aqui..Essa capacidade genial mas que não fazia coisas como colar uma foto dos lábios da atriz em uma tela e chamar de arte, criou móveis, jóias, expressou a criatividade que o imortaliza em diversas coisas, até mesmo perfumes, canetas, pequenos objetos. E talvez hoje ele continuasse criando coisas assim e penso nos lábios que inspirariam outros móveis, sofás, divãs...sem o botox ou o silicone porque subverteriam o sentido artístico natural, mas olho para algumas bocas e penso que ousaria chamá-las " Dalinianas"...
Desculpem-me os fãs de Warhol, Miró e outros assim, " cults e vendáveis, caros e sem paixão" é como os vejo. O gënio Catalão é Dalí na pintura, Gaudi na arquitetura e como em tudo que vemos e nos emociona, aqui também creio que vale ser tão passional quanto preferir o Internacional ao Grëmio ou o Botafogo ao Flamengo, não importa que esse último tenha a maior torcida, existe uma aura romäntica sobre Internaional de Porto Alegre e o Botafogo, como Dalí e sua obra e, quanto aos outros dois, seriam obras de Warhol e Miró...

Banalidades Singnificantes

Acordar pela manhã, levantar e ir ao banheiro para lavar o rosto e escovar os dentes parece algo banal e automático, um ritual de higiene que se repete desde que somos bem pequenos. Outro dia, assistindo a um filme sobre traumas e stress, o psiquiatra falava na importäncia desses pequenos ritos banais para a sanidade. A pessoa sente-se mais segura quando suas rotinas são respeitadas e seus pequenos hábitos repetem-se na ordem em que está acostumada.
O lugar onde costumamos deixar nossos pertences ao chegar em casa, por exemplo, é uma zona de conforto. No dia seguinte na hora de sair não é preciso ficar procurando as chaves do carro, a carteira, os óculos, o estojo com as canetas, a agenda e o celular. Tudo está no mesmo lugar onde deixamos mas, se as coisas ficam espalhadas, dispostas pela casa desordenadamente, cada manhã gera asiedade desnecessária que se agrava com o tempo perdido para encontrar as coisas que nunca estão onde precisamos delas e quanto maior a pressa, também a dificuldade de achar aquilo que pode estar diante de nossos olhos mas um estranho bloqueio nos impede de ver.
Preparar um café, quer seja numa cafeteira ou instantäneo no microondas, pode ser banal e rotineiro mas um cafézinho sempre foi pretexto ou convite para visita. As pessoas ainda dizem: " Vai lá em casa tomar um cafézinho; vamos tomar um café qualquer hora; queria encontrar alguém pra tomar um café..." Desta forma, adquire outro significado, torna-se acolhedor, oferecer a um visitante é um ritual de atenção, mas é comum pensarmos apenas na bebida em sí, nada mais.
O Mike Tyson como os demais cães, condiciona-se pela repetição e adquire com ela hábitos e nem sempre observamos isso. Quando vou lá e brincamos, depois de um tempo paro e vou à cozinha preparar um café, ele senta-se no chão da cozinha e me espera. Preparado o café, saio até a varanda, sento em um dos bancos e ele deita-se ao meu lado, ouvimos música, bebo lentamente meu café pensando em muitas coisas. Ao terminar fumo um cigarro e logo que termino, ao ver que apaguei o cigarro no cinzeiro, ele corre e vai pegar um brinquedo qualquer...uma garrafa pet, uma bola, um osso grande de borracha para que eu jogue e ele repetidas vezes traga de volta. Existe uma ordem em todas essas ações e ele assimilou que o café e o cigarro são um intervalo em nossas brincadeiras e terminado esse momento, podemos voltar a brincar...banal se visto à distäncia, significa algo, possui algum sentido para ele. Engraçado mas, assim vejo isso e pertenço a uma comunidade "Meu Cachorro Acha que é Gente", porque isso faz sentido pra mim.
Todos nós possuem seus hábitos e rituais, alguns chamam de mania também, talvez não pensemos em significados, e as banalidades sejam apenas pequenas coisas soltas no cotidiano e sobre as quais não refletimos. Mas tudo que está a nossa volta tem a capacidade de representar algo ou alguém mas mesmo isso deve ser repensado. As vezes as pessoas dizem que guardam coisas que lembram algo, alguém, algum lugar, um momento. Fotos de família em casamentos, batizados, grandes encontros festivos...não conheço quem guarde fotos do "primeiro funeral ao qual compareci" ou " as muletas de tia Maria, de quando ela quebrou o fëmur" ou algo assim.
Mas todos tem significado, tudo pode ganhar vida, desde uma caixa vela e feia que, depois de raspada, envernizada e polida, ganha um visual lindo e atraente, até meu disco de vinil do Barão Vermelho, aliás eu conservei meus discos e tenho dificuldades em me desfazer deles exatamente porque posso contar através das capas, das dedicatórias e da história que cada um tem desde que chegou às minhas mãos, parte de minha existëncia com sua trilha sonora própria.