Acordar pela manhã, levantar e ir ao banheiro para lavar o rosto e escovar os dentes parece algo banal e automático, um ritual de higiene que se repete desde que somos bem pequenos. Outro dia, assistindo a um filme sobre traumas e stress, o psiquiatra falava na importäncia desses pequenos ritos banais para a sanidade. A pessoa sente-se mais segura quando suas rotinas são respeitadas e seus pequenos hábitos repetem-se na ordem em que está acostumada.
O lugar onde costumamos deixar nossos pertences ao chegar em casa, por exemplo, é uma zona de conforto. No dia seguinte na hora de sair não é preciso ficar procurando as chaves do carro, a carteira, os óculos, o estojo com as canetas, a agenda e o celular. Tudo está no mesmo lugar onde deixamos mas, se as coisas ficam espalhadas, dispostas pela casa desordenadamente, cada manhã gera asiedade desnecessária que se agrava com o tempo perdido para encontrar as coisas que nunca estão onde precisamos delas e quanto maior a pressa, também a dificuldade de achar aquilo que pode estar diante de nossos olhos mas um estranho bloqueio nos impede de ver.
Preparar um café, quer seja numa cafeteira ou instantäneo no microondas, pode ser banal e rotineiro mas um cafézinho sempre foi pretexto ou convite para visita. As pessoas ainda dizem: " Vai lá em casa tomar um cafézinho; vamos tomar um café qualquer hora; queria encontrar alguém pra tomar um café..." Desta forma, adquire outro significado, torna-se acolhedor, oferecer a um visitante é um ritual de atenção, mas é comum pensarmos apenas na bebida em sí, nada mais.
O Mike Tyson como os demais cães, condiciona-se pela repetição e adquire com ela hábitos e nem sempre observamos isso. Quando vou lá e brincamos, depois de um tempo paro e vou à cozinha preparar um café, ele senta-se no chão da cozinha e me espera. Preparado o café, saio até a varanda, sento em um dos bancos e ele deita-se ao meu lado, ouvimos música, bebo lentamente meu café pensando em muitas coisas. Ao terminar fumo um cigarro e logo que termino, ao ver que apaguei o cigarro no cinzeiro, ele corre e vai pegar um brinquedo qualquer...uma garrafa pet, uma bola, um osso grande de borracha para que eu jogue e ele repetidas vezes traga de volta. Existe uma ordem em todas essas ações e ele assimilou que o café e o cigarro são um intervalo em nossas brincadeiras e terminado esse momento, podemos voltar a brincar...banal se visto à distäncia, significa algo, possui algum sentido para ele. Engraçado mas, assim vejo isso e pertenço a uma comunidade "Meu Cachorro Acha que é Gente", porque isso faz sentido pra mim.
Todos nós possuem seus hábitos e rituais, alguns chamam de mania também, talvez não pensemos em significados, e as banalidades sejam apenas pequenas coisas soltas no cotidiano e sobre as quais não refletimos. Mas tudo que está a nossa volta tem a capacidade de representar algo ou alguém mas mesmo isso deve ser repensado. As vezes as pessoas dizem que guardam coisas que lembram algo, alguém, algum lugar, um momento. Fotos de família em casamentos, batizados, grandes encontros festivos...não conheço quem guarde fotos do "primeiro funeral ao qual compareci" ou " as muletas de tia Maria, de quando ela quebrou o fëmur" ou algo assim.
Mas todos tem significado, tudo pode ganhar vida, desde uma caixa vela e feia que, depois de raspada, envernizada e polida, ganha um visual lindo e atraente, até meu disco de vinil do Barão Vermelho, aliás eu conservei meus discos e tenho dificuldades em me desfazer deles exatamente porque posso contar através das capas, das dedicatórias e da história que cada um tem desde que chegou às minhas mãos, parte de minha existëncia com sua trilha sonora própria.
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