sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Memórias de Natal

A igreja ficava na entrequadra 403/404 Norte, em Brasília. Nossa casa era nos fundos minha irmã, meu irmão, eu e o caçula. Alguns dias antes meus pais compravam doces em distribuidoras e confeccionavam pequenos pacotes que seriam distribuídos às crianças após o culto de Natal. Minha irmã era a única autorizada por meus pais a entrar naquele espaço cheio de balas, pirulitos, chocolates...mas depois do culto também ganharíamos nossos pacotes.
Dona Magdalena acumulava as funções de diretora musical, regente do coral da igreja, diretora da peça, além de ser a mamãe noel, ajudar as crianças nos ensaios, também costurava nossas roupas, ou melhor, as vestimentas características que usaríamos no culto. Ela era dedicada e incansável, queria que tudo estivesse lindo e sempre acabava dando certo.
O pastor Herbert era carismático e tinha o dom de pregar e nos manter atentos, mesmo as crianças. Havia uma historinha a ilustrar a mensagem e naquelas noites de Natal tudo parecia e era mesmo muito mágico. A árvore, um enorme pinheiro natural, toda enfeitada, ficava perto do púlpito, em baixo, dois sacos vermelhos grandes onde ficavam os doces que seriam distribuídos. Natais simples e doces dos quais sinto uma imensa saudade porque podíamos estar todos alí naquele espaço de amor e união e depois do culto, da distribuição dos doces, depois íamos para nossa casa, só a família Hörlle.
A mãe e o pai entregavam nossos presentes e vinham da cozinha, assados no forno, nossos mistos quentes e Coca Cola à vontade. Nossas primeiras ceias de Natal em Brasília eram assim e tinham um sabor que poucas ceias, por mais fartas que fossem puderam ter. Uns tempos depois, vinha a tia Lali e o Ernst, ela era a única irmã de minha mãe no Brasil. Tinha três filhos e fazia um pudim de leite condensado que ainda me deixa com saudades.
Em 1976 quando mudamos para a casa nova, o Natal alí foi especial. Tínhamos uma casa própria, meu pai tinha vencido um câncer, estavamos todos alí reunidos depois do culto de Natal. Haviá Chester, pudim, presentes e o melhor, sempre, todos em amor reunidos.
A vida segue seus rumos e vamos pelos caminhos escolhidos., Alguns anos atrás minha irmã veio passar o Natal comigo, fomos a um culto como sempre fazíamos, ceiamos em minha casa com as crianças e lembramos de nossos natais...e mais um chegou, e devo pensar que estamos distantes físicamente mas nunca deixamos de estar unidos em amor.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Gramscimanía: Lo$ nuevo$ reac$ionario$ de Fran$ia, E$paña y Vene$uela

Gramscimanía: Lo$ nuevo$ reac$ionario$ de Fran$ia, E$paña y Vene$uela

Um texto interesante porque faz tempo vemos que novos reacionários, em muitos casos, são egressos de movimentos de esquerda e não raro foram militantes radicais que chegaram a optar pela luta armada, caso de Alfrdo Sirkis e Fernando Gabeira, hoje defensores de causas ecológicas, aliados ao PSDB, DEM e PPs.
Ao imaginarmos o Fernando Gabeira de " O que é Isso Companheiro"? e o Sirkis de " Os Carbonários, memórias de uma guerrilha perdida" e " Roleta Chilena" , fica difícil imaginar que hoje tenham uma postura conservadora, mesmo quando defendem alguns temas progressistas. Concordaram em fazer campanha para o Serra ( Gabeira) em uma das mais sórdidas disputas que o país viu nesse período de redemocratização.
Considerando todas essas questões e muitas outras que os brasileiros mais afeitos à política nacional acompanham, sempre é oportuno partilhar textos onde essa mudança de rumo pode ser questionada e talvez, compreendida.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

ASTOR PIAZZOLLA & GERRY MULLIGAN - LIVE IN ITALY 1974

O calor em Niterói é intenso apesar de uma chuvinha fina que cai. Sentado na sacada escuto essa bela apresentação que fundiu Jazz e Tango. Penso que Anos de Solidão é um lamento que se enquadra em um cenário de minha vida. Se aos poucos coisas boas acontecem no espaço profissional, uma perda anunciada e dolorosa se forma com mais intensidade. A "indigitada das gentes" como a chamou um dia o poeta, insiste em buscar minha doce referência afetiva, a mulher doce que me ensinou a gostar de música, de livros e que educou seus filhos para o mundo, que desejou que eles tivessem " raízes e asas" pois assim não perderiam as referências do lugar de onde vieram mas ao mesmo tempo, seriam livres para voar em direção os seus sonhos. Com ela nós sorrimos e choramos, vestimos as roupas de muitas encenações de Natal. Dona Magdalena Horlle é assim, doce e sensível, criou 4 filhos com muito afeto, amor e carinho, sempre nos abraçou, me mandou chocolates no Natal, e uma camiseta do Inter, porque não se deixa vencer pela quimioterapia, e o desejo de ter a presença dela por muito mais tempo me faz pensar que existe tanta gente má no mundo, que não faria falta, que seria uma boa troca algo como : Moreira Franco, Arthur Virgílio, José Serra, Deus os leva em um pacote, e deixa mamãe mais tempo por aqui. O mundo com certeza ficará mais doce e o Brasil agradeceria. Mas nesse momento, orações, corações e mentes, pedindo que o tempo seja clemente, a medicina cumpra seu papel e as esperanças se renovem, porque afinal de contas, quero mais natais com douçura e cartões, sim ela ainda manda cartões de Natal pelo correio...

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Desde 007 até os recentes vazamentos

A imprensa divulgou mais informações sobre o vazamento de relatos que deveriam permanecer secretos por bom tempo, onde as atividades de membros do corpo diplomático dos EUA em diferentes países não ficam limitadas apenas em assegurar as boas relações mas tem uma outra função, analisar, pesquisar, espionar, conforme os muitos interesses que estejam em jogo na área geográfica em questão.
Os EUA e outras nações praticam a espionagem em diferentes graus faz bastante tempo. Quando Ian Fleming criou o personagem James Bond, era um agente secreto a serviço dos interesses do governo britânico. As recentes sequências : "A Identidade Bourne; Supremacia Bourne; Ultimato Bourne" retratam um espião da CIA com crise de amnésia e outros problemas que passa a ser caçado por aqueles que o criaram, treinaram e agora sentem-se ameaçados. O cinema apenas explora um filão que na literatura já deu bons livros e nos dois casos o ponto de partida é a pratica da espionagem como algo do qual todos sabem mas uma vez tornado público torna-se indefensável.
Acredito que o problema não seja a espionagem em si, mas as indiscrições que podem expor comportamentos e provocar mudanças. Sob esse aspecto, Nelson Jobim ficou em uma situação bastante delicada ao ser uma espécie de "informante privilegiado" da embaixada dos EUA em Brasília. Não apenas foi deselegante ao criticar um colega, também ministro, mas foi desleal ao seu país, de forma muito específica ao expor o Ministério das Relações Exteriores e a atuação de seu Ministro, Celso Amorim que tem prestado excelentes serviços ao país.
Após as informações terem sido divulgadas, o Ministro Amorim não as considerou relevantes e Nelson Jobim procurou dar explicações onde não há lugar para isso. As pessoas ao se explicarem deveriam avaliar que: os inimigos não vão acreditar e os amigos não as exigem. Dessa forma, um homem público, e um Ministro de Estado é também o escolhido do Presidente da República, ele deve ser honesto e confiável, não apenas para com aquele que o escolheu mas também para com o povo . Se ocorre uma quebra nessa relação de confiança, a atuação do Ministro fica comprometida e seu trabalho passa a ser questionado, tornando-se mais seguro ao Presidente e ao país, que essa pessoa se retire do serviço. Acredito que Nelson Jobim deveria realmente considerar essa possibilidade e o partido ao qual está ligado também precisa analisar a conveniência de manter esse senhor no cargo.
O Brasil é um país soberano e faz suas escolhas em política interna e externa de maneira bem independente, por mais que isso venha incomodando outros países. Em um passado recente nosso alinhamento com os interesses dos EUA e de outras potências ocidentais era quase automático. Por bastante tempo fomos um "satélite" da vontade de outros e não apenas durante o regime militar em sua primeira fase, com Castelo Branco, mas também na redemocratização, quando nossa diplomacia agia com pouca independência porque o Presidente da República imaginava-se também um hábil diplomata e no final das contas, Fernando Henrique Cardoso não foi nenhuma dessas coisas, mas nossa política externa sob seus dois mandato foi muito frágil.
A retomada de uma diplomacia atuante, o Brasil tendo visibilidade e sendo representado com independência e autonomia é um fenômeno recente. O diplomata e atual Ministro de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, Samuel Pinheiro Guimarães, é um homem bastante preparado e dentre suas obras destaco: "500 anos de periferia: uma contribuição ao estudo da política internacional". Nessa obra são analisados novos blocos econômicos, a importância da OMC na nova ordem mundial e também o fato de que os Estados Unidos possuem interesses geoeconômicos em todas as regiões do Planeta.
O Brasil tem feito bons negócios com a França e não se resumem à compra de novos caças para a Força Aérea. O mais importante tem sido os acordos sobre transferência de tecnologia e com isso os Estados Unidos não podem competir porque seus parlamentarem jamais vão aprovar acordos comerciais em que seja exigido o compartilhamento das técnicas e informações estratégicas, ainda mais em assuntos que envolvam segurança nacional. E nossa diplomacia tem sido incansável na negociação de tratados que tenham como centro não a simples compra de mercadorias estratégicas mas que quando isso ocorrer, que exista o compromisso do país vendedor em transferir tecnologia naquela área específica.
Ainda vamos ler muito sobre o vazamento de dados e os interesses dos EUA. Os países que sentirem-se prejudicados vão se manifestar se assim julgarem oportuno. O mais importante é que nós, cidadãos brasileiros, devemos perguntar ao presidente Lula e à presidenta Dilma Rousseff se um ministro que se comporta como Nelson Jobim merece permanecer à frente de qualquer cargo público.