quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Desde 007 até os recentes vazamentos

A imprensa divulgou mais informações sobre o vazamento de relatos que deveriam permanecer secretos por bom tempo, onde as atividades de membros do corpo diplomático dos EUA em diferentes países não ficam limitadas apenas em assegurar as boas relações mas tem uma outra função, analisar, pesquisar, espionar, conforme os muitos interesses que estejam em jogo na área geográfica em questão.
Os EUA e outras nações praticam a espionagem em diferentes graus faz bastante tempo. Quando Ian Fleming criou o personagem James Bond, era um agente secreto a serviço dos interesses do governo britânico. As recentes sequências : "A Identidade Bourne; Supremacia Bourne; Ultimato Bourne" retratam um espião da CIA com crise de amnésia e outros problemas que passa a ser caçado por aqueles que o criaram, treinaram e agora sentem-se ameaçados. O cinema apenas explora um filão que na literatura já deu bons livros e nos dois casos o ponto de partida é a pratica da espionagem como algo do qual todos sabem mas uma vez tornado público torna-se indefensável.
Acredito que o problema não seja a espionagem em si, mas as indiscrições que podem expor comportamentos e provocar mudanças. Sob esse aspecto, Nelson Jobim ficou em uma situação bastante delicada ao ser uma espécie de "informante privilegiado" da embaixada dos EUA em Brasília. Não apenas foi deselegante ao criticar um colega, também ministro, mas foi desleal ao seu país, de forma muito específica ao expor o Ministério das Relações Exteriores e a atuação de seu Ministro, Celso Amorim que tem prestado excelentes serviços ao país.
Após as informações terem sido divulgadas, o Ministro Amorim não as considerou relevantes e Nelson Jobim procurou dar explicações onde não há lugar para isso. As pessoas ao se explicarem deveriam avaliar que: os inimigos não vão acreditar e os amigos não as exigem. Dessa forma, um homem público, e um Ministro de Estado é também o escolhido do Presidente da República, ele deve ser honesto e confiável, não apenas para com aquele que o escolheu mas também para com o povo . Se ocorre uma quebra nessa relação de confiança, a atuação do Ministro fica comprometida e seu trabalho passa a ser questionado, tornando-se mais seguro ao Presidente e ao país, que essa pessoa se retire do serviço. Acredito que Nelson Jobim deveria realmente considerar essa possibilidade e o partido ao qual está ligado também precisa analisar a conveniência de manter esse senhor no cargo.
O Brasil é um país soberano e faz suas escolhas em política interna e externa de maneira bem independente, por mais que isso venha incomodando outros países. Em um passado recente nosso alinhamento com os interesses dos EUA e de outras potências ocidentais era quase automático. Por bastante tempo fomos um "satélite" da vontade de outros e não apenas durante o regime militar em sua primeira fase, com Castelo Branco, mas também na redemocratização, quando nossa diplomacia agia com pouca independência porque o Presidente da República imaginava-se também um hábil diplomata e no final das contas, Fernando Henrique Cardoso não foi nenhuma dessas coisas, mas nossa política externa sob seus dois mandato foi muito frágil.
A retomada de uma diplomacia atuante, o Brasil tendo visibilidade e sendo representado com independência e autonomia é um fenômeno recente. O diplomata e atual Ministro de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, Samuel Pinheiro Guimarães, é um homem bastante preparado e dentre suas obras destaco: "500 anos de periferia: uma contribuição ao estudo da política internacional". Nessa obra são analisados novos blocos econômicos, a importância da OMC na nova ordem mundial e também o fato de que os Estados Unidos possuem interesses geoeconômicos em todas as regiões do Planeta.
O Brasil tem feito bons negócios com a França e não se resumem à compra de novos caças para a Força Aérea. O mais importante tem sido os acordos sobre transferência de tecnologia e com isso os Estados Unidos não podem competir porque seus parlamentarem jamais vão aprovar acordos comerciais em que seja exigido o compartilhamento das técnicas e informações estratégicas, ainda mais em assuntos que envolvam segurança nacional. E nossa diplomacia tem sido incansável na negociação de tratados que tenham como centro não a simples compra de mercadorias estratégicas mas que quando isso ocorrer, que exista o compromisso do país vendedor em transferir tecnologia naquela área específica.
Ainda vamos ler muito sobre o vazamento de dados e os interesses dos EUA. Os países que sentirem-se prejudicados vão se manifestar se assim julgarem oportuno. O mais importante é que nós, cidadãos brasileiros, devemos perguntar ao presidente Lula e à presidenta Dilma Rousseff se um ministro que se comporta como Nelson Jobim merece permanecer à frente de qualquer cargo público.

Um comentário:

Unknown disse...

Sabe Paulo, o que mais me surpreende não são as atitudes desse sehor letrado e sabedor do que faz (porque, pode ter certeza, há algum interesse dele por trás disso). O que me preocupa são as atitudes daqueles que são usados como massa de manobra para os interesses internacionais, como por exemplo a turma que defende radicalmente o ambientalismo e não enxerga que está sendo usada pelos interesses europeus e americanos em detrimento da nossa produção agrícola.