segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Nossos Militares São Intocáveis?

A Argentina trouxe novamente ao banco dos réus generais já condenados, um a 25 anos de detenção e o outro a prisão perpétua pelos crimes praticados durante a ditadura naquele país. Dessa vez respondem pelo sequestro de mais de 30 crianças, filhos de militantes políticos, que foram detidas grávidas, tiveram seus filhos no cárcere e esses bebês foram entregues a militares ou famílias de posses que não podiam ter filhos e apoiavam o regime.
O Brasil não abre os arquivos, punir os militares parece uma afronta que ninguém ousa impor e diante desse acanhado comportamento fica difícil olhar para a história de nossos vizinhos: Uruguay processou e puniu os ditadores, a Argentina, o Chile mas aqui devemos simplesmente "virar essa página, seguir em frente, deixar de revanchismos" apenas para reproduzir algumas das coisas que já foram publicadas a esse respeito.
Os desaparecidos, até que provem em contrário, foram sequestrados, alguns, como Rubens Paiva, diante da própria família: se o sequestro dura enquanto não aparece a vítima, ou seja, trata-se de crime permanente, encontrar as pessoas que ordenaram essas praticas ou apenas seguir as cadeias de comando levaria aos responsáveis que ainda estão sujeitos ao devido processo legal. Mas tememos tratar nosso passado com seriedade e respeito àqueles que foram sacrificados em nome da democracia que hoje usufruímos.
A história é feita por todos, construída pelas micro realidades que somadas formam um todo. Não pertence a vencedores ou vencidos, a generais, comandantes ou " grandes vultos" mas é propriedade de todo país. Aos familiares dos desaparecidos aprova-se uma pensão, estipulam um valor indenizatório muitas vezes questionado ou criticado por muitos, em especial a grande imprensa, e acreditam que isso seja o suficiente para " sepultar o passado"! Nesse quesito, a iniciativa da OAB-RJ, sob a liderança de Wadih Damous, cobrando os arquivos e deixando expressa a vontade de que tenhamos as devidas respostas, é um passo importante.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Seres, Produtos e Miséria

A experiência de convívio forçado produz desgastes em todo tipo de ambiente. Da concentração de um clube de futebol aos presídios. Mas reunir pessoas em uma casa, oferecer a elas um prêmio àquela que conseguir permanecer até o final eliminando as outras, é algo que estabelece outro tipo de parâmetro: a ambição e o que as pessoas estão dispostas a fazer por dinheiro.
O ser humano tem ambições e desejos, a vaidade é o pecado favorito inventado pelo diabo, pois em nome dela as pessoas cometem todos os demais pecados capitais, e entre eles está a ganância. Mas é curioso ver que em um produto vendido ao público como é esse Big Brother, inspirado na obra de George Orwell 1984, onde o " Grande Irmão" observava tudo e todos, o prêmio em dinheiro é um incentivo mas a exposição, a possibilidade de contratos publicitários futuros que vão desde pontas em novelas, posar nua para revistas masculinas, nú para revistas gays, divulgar alguma coisa sua (música, poesia, rap) adquirir uma notoriedade qualquer, mesmo que ela dure alguns meses após o término do programa.
As 10 edições anteriores do programa pareciam um pouco mais contida, não porque os participantes fossem mais pudicos mas creio que a própria orientação delimitava um pouco as coisas e dessa vez, em busca de audiência e polêmicas houve uma candidata transexual, um candidato gay, esses eram de conhecimento público mas além destes, se todos ali assumissem suas escolhas ou preferências sexuais, esse não seria o Big Brother da diversidade mas talvez fosse o com maior incidência de homossexuais. Nada disso afeta nossas vidas, quem sai ou fica, o próximo paredão, as angústias das pessoas que pretendem chegar ao prêmio milionário. Mas as pessoas na rua fazem escolhas, comentam e muitos tem ficado admirados por ser essa a edição mais promíscua, onde os competidores não tem o menor auto respeito, o corpo é apenas parte da estratégia, um sexismo tosco e muitas vezes exagerado.
O merchandasing do programa é intenso e gera ganhos enormes para a emissora. As pessoas pagam ao ligar, compram o pacote do " pay per view" , existe uma loja com os produtos do programa, os patrocinadores exclusivos e aqueles que compram publicidade durante o programa. O prêmio a emissora arrecada em uma única noite em que as pessoas ligam ou mandam torpedos para votar em um dos escolhidos para sair do programa.
A emissora soube vender seu produto e vários clientes avaliaram que seria boa publicidade. Dentre muitas coisas, dou uma dica aos representantes da Kia Motors no Brasil: exijam a revisão do que pagaram pelo merchandasing dos carros na novela " Insensato Coração" porque ela segura a audiência do BBB11 e na primeira chamada pós novela, entra o comercial da Fiat, que não pagou a mesma cota do preço de merchandasing em uma novela de 6 meses, mas está com uma exposição privilegiada.
O que você estaria disposto a fazer por um milhão de Reais? que valores você trairia? não digo amizade, pois ao entrar em uma disputa dessas ningém pensa em amigos. Fidelidade tambem é produto raro nesses programas. Sedução pode ser uma tatica de disputa, mas vale tudo? As pessoas na rua parecem incomodadas com os níveis de baixaria estimulados pela emissora, sobretudo nas festas, onde a bebida liberada faz com que os participantes percam as inibições e tudo é permitido, até a música do Tim Maia deixa de ser respeitada, afinal " só não vale dançar homem com homem nem, mulher com mulher, o resto vale tudo" nesse big brother também vale mulher com mulher e o que mais acharem que vale...sem moralismos, mas com certeza é a miséria humana televisionada e levada a nívie impensáveis tempos atrás.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Ziraldo, Monteiro Lobato, Carnaval e Preconceitos

O Brasil é um país com maravilhosa diversidade étnica. Darcy Ribeiro conseguiu ver em nossa mestiçagem traços positivos que indicavam a capacidade do brasileiro expressa nos mais diversos campos e que era necessário superar aquela " síndrome do cachorro vira lata" à qual se referiu Nelson Rodrigues e também Roberto DaMatta. A herança preconceituosa que atribuía à mestiçagem uma das razões do nosso atraso.
A produção cultural do Brasil nas décdas de 1930-1940 analisava questões relatvas à raça. Estudos de Gilberto Freyre ( Casa Grande & Senzala) Sérgio Buarque de Hollanda(Raízes do Brasil) e o racismo era algo que estava bem presente na explicação das mazelas do país, pois não analizava-se então um conjunto de outras questões: no sul do país, por exemplo, a população negra é menor do que a verificada no Nordeste e no Sudeste e na lógica de uma política de cotas, migrar para o sul assegura uma vaga que, na Bahia, SP ou RJ torna-se improvável.
Faz alguns anos, em debate promovido por instituição privada de ensino superior no RJ, estive com o então vereador Edson Santos, posteriormente alçado à condição de Ministro da Igualdade Racial no final do governo Lula. Naquela oportunidade argumentei que a COTA SOCIAL seria mais adequada à realidade brasileira até por conta da intensa miscigenação. No passado as cédulas de identidade definiam a raça em: Branco, Negro e Pardo. Bom, uma pessoa branca, cuja mãe seja parda, técnicamente seria afrodescendente mas ela não usufrui de uma política de cotas e muitas já foram declaradas " claras demais ou não serem negras o bastante", o que também seria racismo mas isso não entrou na discussão. Naquela oportunidade ele apresentou frágeis argumentos para a defesa de cotas dirigidas apenas a uma raça em especial.
Monteiro Lobato era racista como muitos de sua geração e mesmo assim, produziu livros que nos encantaram a todos antes desse processo de "revisionismo às avessas". Foi defensor de nossas riquezas, conseguiu estimular crianças a descobrirem o gosto pela leitura e agora, tantas décadas depois, tudo isso se perde porque a postura pessoal dele macula sua obra?tenho minhas dúvidas.
Na década de 1970 um estudo antropológico intitulado: Para Ler o Pato Donald, fazia uma releitura do universo criado por Walt Disney, incluindo a comparação entre os personagens que representam as Américas e como essas regiões eram vistas: Brasil , América do Sul, Zé Carioca:malandro, sambista que mora no morro e engana a Rosinha; Panchito é um pato de sombrero, sempre preocupado com a "siesta" e que representa o México e a América Central e por fim, o dedicano mas as vezes atrapalhado Pato Donal, branco, cuida dos sobrinhos, trabalha para o tio Patinhas, seria o estadunidense da classe média...Não lembro de terem execrado os trabalhos de Disney e os personagens continuam por aí...
Não tenho procuração para defender o Ziraldo e nem creio que ele precise:Menino Maluquinho, Flicts, entre outras saborosas leituras também ajudaram as crianças do Brasil a descobrirem a leitura. Vendeu um personagem para a ditadura é forte. Pelé declarou que os brasileiros não estavam preparados para votar, logo depois de ter feito o milésimo gol, ninguém fala disso por que?Charlie Brown Júnior vendeu sua música para a Coca Cola, e aí?também devemos persegui-lo?
Esse texto foi motivado a partir de um material que postaram e com o qual me incomodei: No Blog " O Biscoito Fino e a Massa" há uma " Carta Aberta ao Ziraldo" no endereço:www.idelberavelar.com

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Years of Solitude / Años de Soledad

Era uma manhã cedinho, e o menino Ronaldo Nazário tomou o trem para ir ao São Cristóvão treinar futebol. Estava começando e as vezes nem o dinheiro do trem a mãe dele tinha. Mas os treinos revelaram um menino talentoso e logo o grande Jairzinho, o " furacão da Copa de 1970" viu que valia à pena investir. Comprou o passe e levou Ronaldo para o Cruzeiro. Tinha 16 anos e a vida começava a mudar, mas Bento Ribeiro nunca saiu de dentro dele. Depois de chamar atenção no Cruzeiro, ainda um menino, " ganhou" a Europa, esteve na Copa de 1994 quando o Brasil conquistou o Tetra, era então um jovem de 17 anos. E seguiu seu caminho de gols, contratos, ganhou dinheiro, fez algumas escolhas equivocadas, foi pressionado por patrocinadores, escalado fora de condições por técnicos inescrupulosos. Ronaldo Nazário foi dado como acabado quando se contundiu na Itália. Mas ele seguiu em frente e conseguiu tornar-se o artilheiro da Copa de 2002. Jogou com alegria e vontade, parecia de novo aquele menino de Bento Ribeiro. Mais frustrações, novas feridas, velhas marcAS..Veio encerrar a carreira no Brasil, foi jogar no Corinthians e quando não havia mais nada a provar, foi humilde em se desculpar aos torcedores por não avançarem na Libertadores da América. Encerra sua carreira, em minha opinião, continua digno, espero que seja feliz e avalio que deu muitas alegrias aos torcedores dos times pelos quais passou e ao Brasil, apesar das copas em que o sucesso não aconteceu...

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Abusar da Liberdade de Expressão

Em sentença que condenou alunos da faculdade de farmácia da UNB a pagarem indenização por dano moral a uma professora, a juíza utiliza essa expressão:

"Na hipótese em que tivessem representado perante a autoridade competente, apontando objetivamente fatos que considerassem incompatíveis com a rotina universitária, não haveria como lhes imputar qualquer ilicitude. Mas preferiram abusar do direito de crítica, expondo a professora e afrontando sua reputação profissional perante os seus pares e o restante da comunidade acadêmica."(LINK PARA O SITE DO TJDF COM A SENTENÇA - http://tjdf19.tjdft.jus.br/cgi-bin/tjcgi1?MGWLPN=SERVIDOR1&NXTPGM=tjhtml122&ORIGEM=INTER&CIRCUN=1&SEQAND=139&CDNUPROC=20050110725634)

As relações acadêmicas devem ser pautadas pelo respeito e muitas vezes os alunos exacerbam seu direito de crítica e o fazem de forma pública sem buscarem antes as vias institucionais adequadas mas também, é importante destacar, que tendo buscado sem sucesso os caminhos que seriam os mais adequados, premidos pela ansiedade em verem seus pleitos atendidos, muitas vezes os alunos acabam perdendo a paciência ou simplesmente desacreditando que aqueles que podem, farão algo para mudar uma situação que precisa ser resolvida.
Em instituições públicas, estaduais ou federais, em geral as exigências para o ingresso são bastante rígidas e regulamentadas nos parâmetros da CFRB/88 nos termos do artigo 37. Diante disso, acredita-se que um professor admitido para a função preencha os requisitos que o cargo impõe e a lei prevê, bem como o que em geral vem disposto no edital para o certame que trata do provimento do cargo em questão.
Os mesmos critérios, infelizmente, ainda não são uma realidade no ensino privado e a proliferação de faculdades apenas agravou o problema. Existe gente despreparada atuando em diferentes faculdades e os alunos, nesse caso, consumidores de produto educacional, nem sempre conseguem ter seus direitos respeitados. O fracasso de muitos nos exames da OAB demonstra que tem faltado cuidado e fiscalização por parte do MEC ao credenciar novos cursos. Poder-se-ia falar em " estelionato educacional"? estariam os donos ou controladores de algumas instituições ( considerando-se que algumas delas abriram capital em bolsa e tornaram-se S.A) " obtendo para si ou para outrem vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento" ( CP art 171 Caput).
A pedagogia muitas vezes requer sim, uma punição, para que as pessoas sejam chamadas às suas responsabilidades e saibam que existem limites a serem respeitados. Os estudantes da UNB foram esclarecidos quanto aos " excessos no uso da liberdade de expressão". Espero que tal fato seja apenas o começo de novas reflexões sobre as condições de trabalho e a realidade acadêmica nas instituições, tanto públicas quanto privadas, onde se produz, difunde e aprofunda o estudo universitário.